A crise enfrentada pelos hospitais VITA, em Curitiba, marcada por atrasos salariais e paralisação de trabalhadores, reforça o cenário de dificuldades financeiras que o Sindicato dos Hospitais e Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Paraná (Sindipar) vem alertando nos últimos anos. A entidade destaca que a defasagem das tabelas de remuneração dos planos de saúde, os atrasos nos pagamentos, as glosas e o aumento contínuo dos custos operacionais têm comprometido a sustentabilidade econômica dos hospitais privados, colocando em risco a manutenção de empregos, investimentos e serviços essenciais à população.
Para o presidente do Sindipar, Álvaro Quintas, a situação vivenciada pelos hospitais VITA evidencia a importância de discutir os desafios econômicos enfrentados pelo setor, que precisa manter estruturas complexas de atendimento, equipes especializadas e serviços funcionando ininterruptamente, mesmo diante de uma remuneração que não acompanha a evolução das despesas.
“O Sindipar vem alertando há muito tempo que os hospitais privados enfrentam um desequilíbrio financeiro crescente. Os custos aumentam continuamente, mas os valores pagos pelas operadoras de planos de saúde não acompanham essa evolução. As instituições precisam manter equipes, medicamentos, equipamentos e estruturas funcionando 24 horas por dia, enquanto suas margens operacionais ficam cada vez menores. É uma situação que compromete a sustentabilidade de toda a rede”, afirma Quintas.
Segundo o sindicato, embora cada instituição tenha suas particularidades administrativas e financeiras, as dificuldades enfrentadas pelo setor exigem atenção porque seus reflexos ultrapassam a gestão hospitalar e atingem diretamente profissionais de saúde, fornecedores e pacientes.
“Quando um hospital enfrenta dificuldades para manter suas operações, os impactos podem atingir toda a cadeia de assistência. Estamos falando de instituições que geram empregos, investem em tecnologia, mantêm equipes altamente qualificadas e prestam serviços essenciais à população. Precisamos discutir as condições necessárias para garantir a continuidade dessa estrutura”, ressalta o presidente.
Planos de saúde reajustam mensalidades, mas remuneração dos hospitais continua defasada
Um dos principais problemas apontados pelo Sindipar é a diferença entre os custos reais dos atendimentos e os valores pagos pelas operadoras de planos de saúde.
Enquanto despesas com medicamentos, materiais hospitalares, equipamentos, energia, manutenção, tecnologia e profissionais aumentam continuamente, os reajustes das tabelas de remuneração permanecem, em muitos casos, abaixo da inflação médica.
No ciclo de 2025, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) autorizou reajuste máximo de 6,06% para os planos individuais e familiares, enquanto estimativas utilizadas pelo setor apontavam inflação médica entre 13% e 15%.
Nos planos coletivos e empresariais, que representam a maior parte do mercado, não existe um teto regulatório equivalente para os reajustes cobrados dos beneficiários. Entretanto, segundo o Sindipar, os aumentos concedidos aos hospitais e clínicas frequentemente não acompanham a evolução dos custos assistenciais.
“O beneficiário paga mensalidades cada vez maiores, mas esses reajustes não chegam necessariamente na mesma proporção aos hospitais que realizam os atendimentos. Muitas instituições acabam absorvendo essa diferença, trabalhando com margens reduzidas e, em determinadas situações, recebendo valores inferiores aos custos dos procedimentos”, explica Quintas.
O cenário contrasta com a recuperação financeira das operadoras. Dados divulgados pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) indicam que os planos de saúde registraram lucro líquido de R$11,1 bilhões em 2024, resultado 275% superior ao do ano anterior.
Por outro lado, os hospitais enfrentam redução das margens operacionais e dificuldades de fluxo de caixa. Levantamentos da Anahp apontaram queda aproximada de 40% na margem EBITDA das instituições analisadas, enquanto mais de 62% dos hospitais associados projetavam um ano de 2025 mais desafiador do que 2024.
Para o Sindipar, a situação é especialmente preocupante entre hospitais e clínicas de pequeno e médio porte, que possuem menor capacidade financeira para absorver prejuízos ou negociar contratos com grandes operadoras.
Glosas e atrasos nos pagamentos
Além da remuneração insuficiente, os hospitais convivem com o crescimento das glosas, mecanismo pelo qual as operadoras recusam total ou parcialmente o pagamento de consultas, exames, procedimentos e internações já realizados.
Dados apresentados pela Anahp mostram que os índices de glosas iniciais chegaram perto de 18% em determinados períodos de 2025, enquanto o prazo médio de recebimento dos hospitais ultrapassou 78 dias.
Em 2024, aproximadamente R$5,8 bilhões referentes a serviços prestados foram retidos pelas operadoras por meio de glosas, correspondendo a 15,89% do faturamento hospitalar analisado.
Na prática, isso significa que as instituições precisam arcar imediatamente com despesas trabalhistas, medicamentos, fornecedores, tributos e manutenção, mas podem esperar meses para receber pelos serviços prestados.
“Um hospital não pode suspender suas despesas enquanto aguarda o pagamento de uma operadora. Os salários precisam ser pagos, os medicamentos adquiridos e os equipamentos mantidos em funcionamento. Quando os recursos demoram a entrar, as instituições precisam recorrer ao capital de giro e, muitas vezes, ao endividamento. Com juros elevados, esse processo agrava ainda mais as dificuldades financeiras”, destaca Álvaro Quintas.
Outro fator que pressiona as despesas é o impacto dos custos trabalhistas. No Paraná, estimativas apresentadas pelo setor apontam que a implementação do piso nacional da enfermagem representou um aumento de aproximadamente R$500 milhões nos custos das instituições.
A carga tributária suportada pelos hospitais privados, que não contam com as mesmas imunidades e isenções das instituições filantrópicas, também integra o conjunto de desafios apontados pelo sindicato.
Dificuldades financeiras ameaçam empregos e continuidade dos serviços
Para o Sindipar, situações como a enfrentada pelos hospitais VITA demonstram a necessidade de discutir a sustentabilidade da rede privada de saúde antes que dificuldades financeiras comprometam a capacidade de funcionamento das instituições.
O sindicato ressalta que os direitos dos trabalhadores devem ser preservados e que a busca pelo equilíbrio econômico precisa caminhar junto com a valorização dos profissionais e a manutenção da qualidade assistencial.
“Os profissionais de saúde são fundamentais para o funcionamento de qualquer hospital e precisam ter seus direitos assegurados. Ao mesmo tempo, é necessário garantir condições para que as instituições consigam honrar seus compromissos, manter suas equipes e continuar atendendo a população. A sustentabilidade financeira dos hospitais também é uma questão de proteção ao emprego e de segurança assistencial”, afirma Quintas.
Segundo a entidade, os hospitais privados vêm realizando esforços para melhorar a eficiência e a qualidade dos atendimentos, mesmo diante das dificuldades econômicas.
Indicadores da Anahp apontam avanços nos protocolos clínicos, redução do tempo médio de internação e melhora nos índices de segurança dos pacientes. Em 2025, a média de permanência hospitalar chegou a 3,66 dias, enquanto a taxa de ocupação se aproximou de 80%.
Entretanto, os ganhos de eficiência não são suficientes para compensar a defasagem das tabelas, as glosas e os atrasos nos recebimentos.
A pressão financeira também compromete a capacidade de renovar equipamentos, modernizar estruturas, contratar profissionais, ampliar leitos e investir em novas tecnologias. Em situações mais graves, pode resultar na redução de serviços e até no encerramento de atividades.
Outro desafio apontado pelo Sindipar é a verticalização do mercado de saúde suplementar, caracterizada pela ampliação das redes próprias das operadoras e pelo descredenciamento de hospitais independentes. Segundo a entidade, esse movimento reduz o poder de negociação dos prestadores e pode limitar as alternativas de atendimento disponíveis aos beneficiários.
Sindipar defende medidas urgentes
Diante desse cenário, o Sindipar defende a ampliação do diálogo com as operadoras de planos de saúde, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário para discutir medidas que garantam maior equilíbrio econômico ao setor.
Entre as prioridades estão a atualização periódica das tabelas de remuneração, maior transparência nos contratos, critérios objetivos para a aplicação de glosas e mecanismos que assegurem previsibilidade nos pagamentos pelos serviços prestados.
Para Álvaro Quintas, a situação financeira dos hospitais privados precisa ser tratada como uma questão estratégica para a manutenção da assistência à saúde no Paraná.
“Não estamos falando apenas da sustentabilidade financeira de empresas. Estamos falando da preservação de hospitais, clínicas, empregos e serviços essenciais para a população. O setor privado desempenha um papel fundamental na assistência à saúde e precisa de condições adequadas para continuar funcionando. O que o Sindipar vem alertando é que esse desequilíbrio não pode continuar sendo absorvido indefinidamente pelos prestadores. Precisamos construir soluções antes que mais instituições tenham sua capacidade de atendimento comprometida”, conclui.
O Sindipar está presente em 70 municípios paranaenses e representa aproximadamente 5 mil estabelecimentos e serviços de saúde no estado.
SINDIPAR · Sindicato dos Hospitais e Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Paraná