Mais uma criança perdeu a vida enquanto esperava por vaga em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica em Ponta Grossa. A menina Mariele Batista, de dois anos e oito meses, morreu nessa terça-feira (31/10) depois de passar cerca de 5 horas à espera de transferência para um hospital de Curitiba. O drama da mãe Patrícia Ferreira da Silva, 28 anos, teve início no último domingo, quando a filha começou a passar mal apresentando vômitos, febre e dor de cabeça. Mariele foi levada ao Hospital Municipal da Criança de Ponta Grossa, onde foi medicada e liberada com a recomendação de que, se o caso piorasse, a mãe deveria procurar por atendimento em qualquer posto de saúde. “A criança ficou mal novamente e foi levada ao hospital mais uma vez. Logo depois de ser internada, ela sofreu uma parada respiratória, foi reanimada e começou a ter convulsões”, relata Adelmo Batista, tio de Mariele.
Assim que os médicos do Hospital da Criança confirmaram que o estado da menina era grave, foi solicitado um leito de UTI. Um documento com o pedido foi enviado pela instituição hospitalar à Central de Leitos da Regional de Saúde de Ponta Grossa, perto das 9 horas da manhã de ontem. De acordo com informações da chefe da Regional, Lenir Monastirsky, a vaga em UTI foi conseguida às 14h30. Nesse intervalo, a criança estava sendo encaminhada para uma clínica da cidade, para realizar uma tomografia. Ela não resistiu e acabou perdendo a vida na ambulância do Samu.
Para o promotor de Saúde Pública de Ponta Grossa, Fuad Faraj, a morte de mais essa criança demonstra a total incompetência e descaso da secretaria de Estado da Saúde com a população do Município. Segundo ele, outro problema grave além da falta de UTI pediátrica é a ausência de uma UTI Móvel, para realizar o transporte rápido de pacientes. “Até o cavalo que mora na granja do Cangiri é mais bem tratado do que as pessoas carentes que precisam do sistema de saúde pública em Ponta Grossa”, destacou.
Medidas – O MP deve apresentar, ainda hoje, pedido formal de instauração de inquérito policial por possível omissão de socorro. Paralelo a isso, o promotor também deve apresentar pedido de liminar contra a secretaria estadual de Saúde, desta vez cobrando melhorias no atendimento de crianças.
O coordenador de Saúde Preventiva da secretaria de Saúde de Ponta Grossa, Alberto Calvet, afirmou que não houve omissão de socorro neste caso. Segundo ele, a criança deu entrada no hospital com um estado de mau compulsivo, quadro que requer encaminhamento imediato para uma UTI. “O que aconteceu é que, vergonhosamente, Ponta Grossa não tem leitos de UTI pediátrico”, disse.
Regional nega falta de leito
PONTA GROSSA – A chefe da 3ª Regional de Saúde de Ponta Grossa, Lenir Monastirsky, nega que a criança tenha perdido a vida por falta de leitos em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Segundo ela, a Central de Leitos conseguiu uma vaga no Hospital Angelina Caron, de Curitiba, às 14h30 de ontem. Lenir afirma, também, que não foi a falta de uma UTI Móvel que atrasou ainda mais o atendimento médico. “Eu acompanhei pessoalmente o caso. Assim que o leito de UTI em Curitiba foi conseguido nós avisamo3s ao hospital e a equipe médica que estava realizando o atendimento. No entanto, nós fomos avisados que não seria mais necessário, já que a criança tinha falecido”, explicou.
A versão da chefe da Regional também deverá ser chegada pelo inquérito policial que de deve ser instaurado para investigar o caso. De acordo com o promotor público Fuad Faraj, todas os responsáveis pelo atendimento e procedimentos médico nesse caso serão convidados a prestar esclarecimentos.
(Editorial do jornal Diário dos Campos, de Ponta Grossa, dia 1.º de novembro de 2006)
A falta de UTIs na cidade
Começa eleição, acaba eleição, e os problemas continuam. Ontem, mais uma vez, Ponta Grossa foi palco de uma tragédia facilitada pelo caos existente na área da saúde no Município, em decorrência, principalmente, da falta de investimentos do poder público no setor. Uma menina de dois anos e oito meses faleceu dentro de uma ambulância após aguardar mais de cinco horas por um leito de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).
O relato da mãe, que, por uma infeliz coincidência completou 28 anos exatamente ontem, é comovente. O drama da família começou na madrugada de domingo passado, quando a menina apresentou vômito, febre e dor de cabeça. E terminou ontem à tarde, com a criança morta, após convulsões e parada cardiáca.
Essa menina não teve sequer a chance de ser atendida em uma UTI. O leito pediátrico mais próximo fica em Curitiba, a 120 quilômetros de Ponta Grossa. A família da criança só conseguiu uma vaga na capital após intervenção do Ministério Público. A solicitação foi feita às 9 horas e a liberação aconteceu apenas depois das 14 horas. E o que mais revolta é que, além da demora na viabilização de um leito de UTI, neste caso houve ainda um outro problema reincidente: a falta de UTI móvel para o transporte adequado de paciente.
É claro que agora vão querer alegar que a morte dessa criança, ocorrida ontem, não tem nada a ver com a falta de leito, mas sim com complicações do quadro clínico. Mas o fato é que o Estado, mais uma vez, foi negligente. Não cumpriu com o seu dever constitucional de assegurar à população o atendimento adequado e imediato na saúde.
Talvez, se a menina que morreu tivesse sido internada, prontamente, numa UTI, agora ela estivesse viva. As suas chances de sobrevivência, certamente, seriam maiores. Mas essa oportunidade lhe foi furtada pelo Estado, a exemplo do que aconteceu com inúmeros outros cidadãos que ao longo dos últimos anos morreram, em Ponta Grossa, no aguardo de leitos de UTI.
É preciso lembrar: só no Hospital Municipal (Pronto Socorro) o número de mortes de pacientes à espera de leitos somou 218 entre outubro de 2004 e o mesmo mês de 2005; e neste ano, entre janeiro e setembro, foram mais 88 óbitos. As estatísticas, lamentavelmente, são trágicas.
E o mais frustrante é que as circunstâncias levam muitos a perderam as esperanças. Não apenas na capacidade do poder público de sensibilizar diante do acometimento de vidas humanas, mas também da própria sociedade em reagir à omissão de nossos governantes. As eleições deixaram isso bem claro. Tudo tende a continuar como está.
Mas o cidadão consciente é aquele que não se deixa abater diante dos infortúnios. É aquele que não perde nunca a capacidade de se indignar contra os demandos do poder público. Não é possível que crianças e outras pessoas inocentes continuem morrem, em Ponta Grossa, no aguardo de UTI. Nesta hora é que o Estado de Direito precisa fazer prevalecer a força de suas instituições, como o Ministério Público e o poder Judiciário.
Não a mais a quem recorrer, a não ser à interferência da Justiça para que a Constituição seja cumprida e o assassinato de pessoas, na cidade e região, por falta de UTIs, seja, efetivamente, estancado.