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Sem saída, Incor DF vai demitir

            O maior centro de referência em cardiologia do Distrito Federal está em crise. Com uma dívida de R$ 30 milhões, a unidade do Instituto do Coração (Incor) vai demitir cerca de 100 pessoas até o final do ano. Assim como aconteceu em São Paulo, os problemas financeiros da entidade devem comprometer o atendimento à população. Mais de 80% das consultas e cirurgias são pagas pelo Sistema Único de Saúde. Depois do descredenciamento da residência em cardiologia do Hospital de Base, o Incor se transformou no principal centro de atendimento e pesquisa da área. Os médicos da unidade já realizaram mais de 18 mil consultas desde sua inauguração, em fevereiro do ano passado.

 

            O presidente da Fundação Zerbini, Adelmar Sabino, que administra todas as unidades do Incor do Brasil, explica que os funcionários demitidos em Brasília vão formar um banco de reserva, para serem convocados assim que as finanças voltarem ao normal. "Eles terão prioridade nas próximas contratações", garante. "Temos 560 funcionários, mas precisamos demitir de 15% a 20% do nosso pessoal para conseguir manter o hospital em funcionamento", justifica.

 

            A crise no Incor começou na unidade de São Paulo. A dívida de R$ 230 milhões repercutiu no atendimento aos pacientes. Com atraso nos salários, médicos e funcionários estão apreensivos quanto ao futuro do instituto, que funciona no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e é mantido pela Fundação Zerbini há 20 anos.

 

            O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) garantiu que vai estudar um empréstimo para tentar salvar o instituto. O presidente Lula reuniu-se no final de semana com o ministro da Saúde, Agenor Álvares, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, para discutir uma saída. O Ministério da Saúde prometeu analisar, em caráter emergencial, um plano de convênio de R$ 20 milhões.

 

            Entre as razões para a crise estaria a construção da unidade de Brasília, que custou mais de R$ 100 milhões. Mas o presidente da Fundação Zerbini atribui os problemas ao Governo do Estado de São Paulo, que não pagou os valores referentes à construção do segundo anexo da sede do Incor, na capital paulista. "O (ex-governador Mário) Covas mandou construirmos o prédio e prometeu ressarcir. Gastamos US$ 50 milhões, mas nunca recebemos nada do governo. Foi aí que começamos a nos endividar", explica Adelmar Sabino.

 

Capacidade

 

            O Incor DF funciona bem abaixo da capacidade de atendimento. As equipes realizam três cirurgias cardíacas por dia, mas poderiam fazer pelo menos seis. A maior parte dos pacientes é do SUS. "Os profissionais também poderiam dobrar o número de cateterismos e angioplastias. Só faltam os recursos", explica o diretor clínico, Adriano Caixeta.

 

            O hospital precisa de mais dinheiro em caixa para equilibrar as receitas e despesas e continuar a prestar atendimento de qualidade. Adelmar Sabino reclama que a Secretaria de Saúde atrasa os pagamentos de consultas repassados pelo Ministério da Saúde. "Temos R$ 2 milhões a receber de convênios e de procedimentos feitos pelo SUS. O hospital tem cunho social, não foi feito para dar lucro, mas precisamos e vamos cobrar esse dinheiro", garante.

 

            A separação administrativa e financeira das unidades do Incor já ajudou um pouco na recuperação da entidade. Hoje, o que acontece em São Paulo não reflete diretamente em Brasília e vice-versa. "Havia um sistema de caixa único e, por isso, era muito difícil identificar os ralos", esclarece Adelmar Sabino.

 

            Os R$ 100 milhões para a construção da unidade Brasília vieram de uma parceria entre Câmara dos Deputados, Senado, Ministério da Defesa e Incor, assinada em 2000. Os recursos foram investidos para construir o prédio, comprar equipamentos e medicamentos. Parte da área do Hospital das Forças Armadas foi cedida ao instituto.

 

            O presidente do Sindicato dos Médicos, César Galvão, teme prejuízos para os pacientes. "Com essa crise, a população deve ser prejudicada. Brasília tem bons núcleos de cardiologia em hospitais particulares, mas faltam cardiologistas nos hospitais públicos, principalmente depois do descredenciamento da residência do Hospital de Base."