No Brasil, cresceram o PIB, a população e as cidades, mas o País adulto não soube cuidar das suas crianças, e parte da infância abandonada se voltou para o tráfico. Mas ainda há gente cuidando desses meninos e meninas. A médica pediatra e sanitarista Zilda Arns Neumann um dia resolveu criar uma metodologia de trabalho com crianças que já recebeu inúmeros prêmios.
A Pastoral da Criança, que ela fundou e coordena desde 1983, é um organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), uma rede de atendimento básico nas áreas de saúde pública, nutrição e educação que envolve voluntários em comunidades pobres de todo o País. A pastoral foi indicada quatro vezes ao Prêmio Nobel.
Zilda Arns é a convidada do Programa Personalidade, que conta com a presença das entrevistadoras Vera Morgado, jornalista da TV Câmara; Eva Faleiros, pesquisadora e professora especializada em violência contra a criança e o adolescente; e Vania Alves, jornalista do Jornal da Câmara.
Vera Morgado: A senhora é mãe de cinco filhos e, quando garota, fugia para ajudar a criar os filhos dos trabalhadores da fazenda do seu pai. Hoje, com a pastoral, a senhora ajuda a cuidar de crianças, de filhos, de mães e de famílias no País inteiro. Quanto desse trabalho é instinto materno? Quanto é fé? E quanto é consciência política?
Zilda Arns: É tudo junto. A gente une a fé com a vida. A consciência política é o motor principal depois da fé.
Vania Alves: Tradicionalmente se diz que o brasileiro não gosta de trabalho voluntário. E a senhora tem uma rede de mais de 270 mil voluntários. Qual é o segredo para convencer o brasileiro a se dedicar ao outro?
Zilda Arns: Em primeiro lugar, a pastoral tem um compromisso. Eu sou importante para melhorar o mundo, o governo não vai dar conta nunca. Então, devo me esforçar para promover uma transformação social. A pastoral tem seu objetivo bem definido: queremos reduzir a mortalidade infantil, a desnutrição, a violência contra a criança, as mulheres e a família. Queremos promover a paz, e o motor é a fé, que se transforma
Eva Faleiros: Segundo alguns críticos, o trabalho das esferas não-governamentais ocupa um espaço da política pública. Qual é a sua reflexão sobre isso?
Zilda Arns: Tenho uma visão claríssima. Eu fui funcionária pública por 34 anos, trabalhei na área de saúde no Paraná. Quando comecei a pastoral, eu dizia: Vou fazer aquilo que o Governo não é capaz de fazer, e não repetir o que o governo pode. O governo tem de fazer, mas como se atinge o coração das mães? Tem de ser com solidariedade. Então, graças a Deus existem organizações não- governamentais para ajudar e pressionar o governo a fazer o que ele precisa. Elas são muito importantes. Falta no Brasil uma pesquisa para dizer o quanto que elas contribuem.
Vera Morgado: O trabalho da pastoral na década de 80 foi praticamente revolucionário. Que tipo de enfrentamento a senhora teve de fazer junto à Igreja Católica? A senhora sofreu resistências dos políticos?
Zilda Arns: No Paraná, eu era conhecida pelo meu trabalho há 30 anos na saúde pública, então não tive problemas com o governo. Mas, quando comecei a expandir o trabalho, foi diferente. Em alguns estados, os governos não queriam que a pastoral desse o soro oral para as crianças fora dos postos de saúde. Então, sofri resistências. Aí começamos com o soro caseiro, que foi o maior sucesso. Para começar mais simplesmente, eu me baseei na metodologia de Cristo quando fez o milagre da multiplicação dos peixes e pães. Ele mandou organizar as comunidades, mandou ver o que tinham. Tínhamos o conhecimento científico e a solidariedade, então multiplicamos esses recursos e todos ficaram satisfeitos.
Vania Alves: A pastoral repassa 60% a 70% de todo o seu dinheiro para as comunidades. Não há contingenciamento. Como funciona essa política, e como a senhora controla eventuais problemas de desvios?
Zilda Arns: A credibilidade é fundamental. Desde o começo eu já tinha tarimba administrativa, eram 27 anos de administração transparente na saúde pública. Nós controlamos tudo por meio da informática e descentralizamos os recursos. Mais de 70% deles são mandados para as bases, e elas administram. Mas temos regras para esse dinheiro. São prestadas contas com recibos, notas fiscais. Elas mandam os documentos, mas não esperamos que gastem o dinheiro para prestar contas, como alguns órgãos públicos acham que deve ser feito. Temos 315 conselhos econômicos, com voluntários que entendem de contabilidade e administração. Nós temos auditoria interna e externa, e também a prestação de contas na Internet.
Vera Morgado: A violência horroriza o brasileiro, inclusive aquela comandada e praticada por crianças e jovens. A pastoral trabalha nas comunidades carentes, onde infelizmente a violência impera. Isso é culpa de políticas públicas, dos políticos ou do fato de as crianças serem abandonadas pelos pais?
Zilda Arns: É de tudo isso. A pastoral atua mostrando que a paz começa
Por outro lado, há a índole da pessoa. Isso é comprovado cientificamente. Quando uma criança de menos de um ano é maltratada, ela pode ter uma tendência significativa para a violência. Quando uma criança é violentada, ela se desestrutura.
Temos um projeto interessantíssimo. Falta-nos dinheiro. Se alguém quiser nos ajudar, será muito bom: "Brinquedos e Brincadeiras Criativas". Uma vez por mês, pesamos as crianças em 43 mil comunidades do Brasil, de norte a sul. As crianças vão brincar, e as mães aprendem que o brinquedo é importante para o desenvolvimento emocional da criança.
Eva Faleiros: Considerando a posição da Igreja em relação ao controle da natalidade, eu gostaria de saber como a Pastoral trabalha essa questão.
Zilda Arns – A gente não é dona da vida. Depois que concebeu, querendo ou não, essa vida tem o direito de ser levada para a frente. Então, absolutamente sou contra o aborto e lanço um apelo: o Brasil deve gastar em favor da vida, melhorar as condições sociais e não querer melhorar as condições sociais cortando a vida.
Quanto aos métodos, há o planejamento familiar natural, que é excelente. Nós temos o método natural pelo colar, por cores. O primeiro dia de menstruação é em vermelho, depois pode haver períodos não férteis, em branco, depois o ciclo se repete.
Vera Morgado: Não é um método difícil de ser acompanhado por mães de baixa renda e de pouca escolaridade?
Zilda Arns: É mais difícil, porque muitas vezes o marido é bêbado, não existe conserto. Fui a uma conferência, em Roma, a convite do Vaticano, sobre ética médica, na qual se disse: "A consciência do casal é a suprema lei". A gente tem um limite, mas realmente só a consciência do casal não pode interferir no aborto, porque o direito da mulher não é superior ao direito da criança. E a criança é criança desde a concepção.
Eva Faleiros: Vocês orientam em relação ao uso do preservativo e da pílula?
Zilda Arns: Não. Nós encaminhamos para o posto de saúde. Para a mulher, procuramos ensinar o método natural. Encaminhamos para o posto de saúde, e a mulher tem que escolher.
Eva Faleiros: Como a senhora avalia a situação atual da criança no Brasil, considerando que, pelo Estatuto da Criança, ela é prioridade? Analisando os orçamentos, pergunto se realmente ela vem sendo uma prioridade.
Zilda Arns: Em relação à mortalidade infantil, os índices caíram desde 1977, quando eu fiz Saúde Pública na USP. Naquela época o índice era de 80 por mil, e passou para 26 ou 27 por mil nacionalmente. Na Pastoral da Criança está em 13 por mil. Conseguimos, com a educação das mães e com a solidariedade junto a elas, reduzir os números da mortalidade. E o sistema de saúde melhorou muito. Em 1988 foi criado o SUS, que eu considero, apesar dos problemas, o melhor sistema de saúde do mundo. Não existe outro melhor, nem em país desenvolvido. Ele é excelente e atende a todos gratuitamente. Os pobres têm acesso a ele.
Vania Alves: A senhora não faz nenhuma crítica ao atual sistema de saúde?
Zilda Arns: Eu faço críticas à falta de melhor administração em todos os níveis, à corrupção que ainda existe, à falta de regulamentação da Emenda 29. A verba é usada naquilo que o administrador acha que pode usar. O maior problema ainda é a falta de regulamentação da emenda. Sob o ponto de vista da mortalidade infantil, realmente houve uma melhora. Mas é preciso haver uma visão ainda melhor para o presente e para o futuro. Eu chamo a atenção do poder público. Um prefeito que se preze, um prefeito inteligente, que pensa no futuro do seu município, tem de cuidar da criança o dia inteiro. Crianças de comunidades carentes têm que ter aula o dia inteiro, com boa alimentação, com música, arte, esporte e educação para o trabalho. O futuro está nisso. Na hora em que for adotada essa política, a criminalidade vai ser reduzida, eu diria, em 90%. Não adianta abrir Febem, abrir mais presídios. Daqui a pouco, teremos mais pessoas presas do que soltas, e as contas sendo pagas por nós. Devemos cuidar da prevenção. Ter saúde e educação de qualidade é o que mais desenvolve o País.
Vania Alves: O Ipea publicou estudos mostrando que diminuiu muito o ritmo de queda da miséria no País. Uma das possibilidades, segundo os pesquisadores, é de que os programas sociais se esgotaram. O que a senhora avalia disso?
Zilda Arns: Os programas sociais têm que ser acompanhados por projetos de educação de qualidade. Não basta a criança ir à escola tantos dias, mas tem que ir para uma escola de qualidade e permanecer o dia inteiro. Isso daria muito mais retorno. Se o paternalismo ajudasse, muitos estados do Nordeste estariam hoje mais ricos do que São Paulo, porque sempre ganharam cesta básica, mas não se cuidou da educação, da saúde, para formar realmente um cidadão. Formar não é só ir para a escola; essa escola para formar cidadãos tem que ser ética, precisa ter valores. O Brasil melhorou, mas a educação ainda é de muito má qualidade. Nós também fazemos parte – a Pastoral da Criança e eu própria – de um grupo que vem estudando todos pela educação. E a educação começa na barriga da mãe; não começa aos 6, 7 anos; começa muito cedo.
Vania Alves: A senhora nunca foi tentada a assumir um cargo público definitivo ou a se candidatar?
Zilda Arns: Em 1967 eu recebi a missão de coordenar a saúde pública na metrópole de Curitiba. Na ocasião, abri postos de saúde nas periferias. Ney Braga, que naquele tempo era prefeito de Curitiba, sugeriu que eu fosse candidata a vereadora, mas eu trabalhava muito, inclusive aos sábados e domingos, e optei pela família. Também nunca procurei ser promovida na saúde pública, ter um cargo mais importante. E depois comecei o trabalho da pastoral.
Vania Alves: O que pode ser feito para dar um melhor futuro às crianças do Brasil?
Zilda Arns: Devemos começar cuidando da criança desde a gestação. Os programas oficiais têm que chegar às comunidades pobres, às famílias. Tem que se gastar mais na base do que nas estruturas. A educação e a saúde são o grande caminho para que o Brasil, daqui a 20 anos, seja mais igualitário, que haja boas condições de saneamento e de acesso à alimentação. Nisso todos têm que ajudar.