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Artigo de opinião: Deus nos acuda

Em “A Vingança dos Sith”, George Lucas procura mostrar “como uma democracia se transforma em ditadura e como uma pessoa boa se torna má”. De admirado herói, Anakin Skywalker passa a amaldiçoado vilão. A última saga de Star Wars, que acaba de ser lançada nos cinemas, apresenta tramas de luta pelo poder, traição e corrupção.
Mas não é somente em galáxias distantes que as coisas são assim. Se pudesse ser mostrada à luz dos efeitos especiais do cinema, a realidade no nosso planeta superaria em muitos graus o poder de dramaticidade da ficção.
E não é necessário ir longe. A última edição da revista “Veja” dedicou várias páginas a vergonhosos flagrantes de corrupção nos Correios. Estranhamente, procurando abafar em vez de colaborar para limpar a sujeira, o governo desencadeou uma operação de emergência, batizada pelos seus próprios integrantes de “Deus nos acuda”.
Deus nos acuda mesmo! O presidente Lula deveria ser o principal interessado em desmontar esquemas que podem simplesmente implodir o seu governo e prejudicar o avanço da democracia no país. Ainda mais considerando que o PT se elegeu levantando a bandeira da moralização.
Inexplicavelmente, o PT desistiu da transparência já desde o início da sua gestão, minimizando os deslizes de Waldomiro Diniz e mais recentemente os escândalos envolvendo o ministro da Previdência, Romero Jucá, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
Poderíamos chamar assim de bizantinas as discussões se os desmandos nos Correios devem ser objeto de inquérito policial, CPI ou de simples correção administrativa. Denúncias como essas devem ser investigadas por todos os meios e a verdade apresentada à sociedade, atinja quem atingir. O governo não pode agir como se fosse trama montada para desestabilizá-lo. Nem a sociedade deve cair no jogo de grupos interessados em manipular os fatos a seu favor. Vários grupos, plantando para a eleição presidencial em 2006, querem mostrar que estão do lado do Bem.
É recomendável ver o novo episódio de Star Wars com os olhos de George Lucas. Quem uma vez trilhou os caminhos do bem nem sempre continuará nele. Carência moral é uma questão que transcende o cenário político. Afeta a alma humana, a alma brasileira, a elite governante e a massa governada. Não adianta esconder. Muitos brasileiros, se tiverem oportunidade, metem a mão nos cofres públicos, corrompem, cobram propina, usam a máquina em benefício próprio, compram votos, desviam verbas, fazem caixa dois, fraudam licitações, enriquecem ilicitamente… É o que temos visto e eis uma das causas da escassez dos recursos públicos para investimento em serviços essenciais e infra-estrutura, apesar das arrecadações fabulosas de impostos.
É essa cultura que precisa ser combatida, mas não da forma como temos feito, admitindo que se trata de herança cultural; pior: genética; pior ainda: um legado de Caim; não tem jeito; pau que nasce torto…
Tem jeito sim! Está ao nosso pleno alcance mudar a história, alterar nosso comportamento e fazer a história, a começar por uma ampla reforma político-administrativa, proibindo o troca-troca oportunista de partidos, reduzindo ou eliminando de vez os cargos de confiança utilizados como moeda de barganha política e troca de favores, minando o fisiologismo, o clientelismo e o nepotismo, instalando regras de transparência e de auditagem na administração pública, admitindo apenas pessoas com formação específica para as diversas atividades públicas… É exemplar, a propósito, a ação judicial dos conselhos federais de Contabilidade, Administração e Economia contra um concurso da Secretaria do Tesouro Nacional que admite qualquer graduado para a função de Analista de Finanças e Controle. Mais ética, mais profissionalismo e menos politicagem na administração pública.

Contador, empresário da contabilidade e presidente do CRCPR; e-mail: mauricio@crcpr.org.br