Empacotados em grossas camadas de plástico e papelão, equipamentos médicos comprados com recursos do Ministério da Saúde (mamógrafos, bercários, sondas, raio-X, camas, monitores cardíacos, ecógrafos, entre outros) mofam em hospitais, postos de saúde e secretarias de todo o Brasil. Na terceira reportagem sobre a sangria com o dinheiro da saúde, o Estado de Minas segue o rastro de obras e instrumentos que não trouxeram melhorias para a população, porque não são usados, desapareceram ou foram comprados em volumes muito maiores do que o necessário.
A análise dos 1.331 relatórios de fiscalização produzidos pela Controladoria-Geral da União (CGU) mostra que pelo menos R$ 55,1 milhões se perderam nos últimos cinco anos, a maioria na Região Norte do país (35%). Em seguida vêm Nordeste (31%) e Sudeste (23,4%). Estão incluídos casos de redes de esgoto concluídas, mas inutilizadas, e compras de ambulâncias sem instrumentos.
Quem passa pela Rodovia RJ-127, no Bairro Guarajuba, em Paracambi, a
O Ministério da Saúde já enterrou naquele terreno, desde então, R$ 1,2 milhão. A Prefeitura de Paracambi diz que espera os R$ 300 mil restantes para concluir a parte física da maternidade. “A gente espera a liberação entre 30 e 40 dias”, informou o secretário municipal de Saúde, Ricardo Xavier, há quatro meses no cargo, para quem as turbulências políticas locais atrapalharam a continuidade da obra.
No mesmo ano em que a obra começou, o prefeito Flávio Campos Ferreira (PL) foi cassado, acusado de compra de votos. Assumiu André Ceciliano (PT), que, em dois mandatos, somou acusações. Em 2006, foi investigado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) por movimentação atípica durante as negociações para a compra de um dossiê por petistas contra tucanos. Também foi citado nas investigações das CPIs do Banestado e dos Sanguessugas. Sem poder partir para um terceiro mandato, tenta agora tornar-se prefeito da vizinha Japeri. A maternidade é uma das principais promessas dos candidatos na campanha deste ano.
Enquanto isso, equipamentos caros, como 10 UTIs neonatais, avaliadas em mais de R$ 1 milhão, além de berço aquecido, incubadora, mesa de parto e mesa cirúrgica, estão encaixotados há mais de um ano no almoxarifado da prefeitura. O pior é que, mesmo que a maternidade já estivesse pronta e os equipamentos fossem instalados, não seria possível atender por falta de pessoal. Quatro anos depois do início das obras, a Prefeitura de Paracambi concluiu agora que não tem como arcar com a administração de um hospital desse porte. Informa já ter pesados encargos com o único hospital do município, o Adalberto das Graças, que faz 10 mil atendimentos mensais, sendo 2,8 mil de pessoas vindas dos municípios vizinhos de Japeri, Itaguaí, Queimados e Seropédica.
“Estamos aguardando o estudo de um projeto que enviamos para que o governo do estado assuma o funcionamento da maternidade, inclusive com a mão-de-obra”, explica o secretário Ricardo Xavier. “É uma obra essencial, mas não temos como assumir isso hoje”, completa.
Para isso, claro, a maternidade precisa ficar pronta. Seu projeto foi orçado em R$ 1,797 milhão, sendo R$ 1,5 milhão do Ministério da Saúde e R$ 297 mil de contrapartida da prefeitura. Mas o custo deve ser elevado pelo desgaste sofrido pela estrutura, além do roubo de telhas, tapumes e ferragens. Não há vigias no local.
Sem necessidade
A Secretaria de Saúde informa que a maternidade ficará pronta ainda este ano. Pelo projeto original, a maternidade teria 12 leitos (duas enfermarias com seis leitos cada), um berçário com 12 leitos, um centro cirúrgico e vários consultórios. Curiosamente, dos 5,3 mil partos média de 15 por dia realizados por ano na cidade, só 500 são de moradores locais.” O município não teria necessidade de uma maternidade desse tamanho se não estivesse arcando com partos de moradores de outras cidades”, diz o secretário.
Paracambi acaba de comemorar os 48 anos de sua emancipação sócioadministrativa. Tem 42 mil habitantes, 13 bairros, 21 postos de saúde (60% cobertos pelo programa Saúde da Família), um hospital municipal (com 30 médicos, em turnos) e dois conveniados, a Casa de Saúde Nossa Senhora Aparecida e o Hospital Evangélico.
Dispõe ainda de cinco unidades móveis. Em visita aos hospitais, o que se vê são filas pequenas e leitos vazios, como no Adalberto das Graças, onde foram inauguradas novas enfermarias. Tudo muito simples, mas limpo. Existe um raio X 24 horas e um eletro, mas, como na maioria dos municípios do interior, faltam equipamentos mais complexos, como tomógrafos.