Ribeirão Preto tem menos leitos psiquiátricos do que a média nacional, déficit que chega a gerar fila de espera de pacientes nas unidades municipais aguardando internação. Levantamento feito pela Gazeta no Hospital Santa Tereza e no Hospital das Clínicas (HC) da USP Ribeirão mostra que são oferecidos hoje 108 leitos para esse tipo de internação, ou 1,8 vaga a cada 10 mil habitantes, enquanto que o Brasil oferece 2,56, segundo o Atlas de Saúde Mental da Organização Mundial da Saúde. A Itália, um dos países precursores da luta antimanicomial, tem mais leitos para a mesma parcela da população (4,63).
"Há escassez real de leitos psiquiátricos. Em alguns dias, há 25 pacientes aguardando internação", afirmou o médico Alexandre de Souza Cruz, coordenador de saúde mental da rede municipal.
Embora o número de internações psiquiátricas em Ribeirão tenha crescido ao longo dos anos, principalmente as relacionadas ao uso de substâncias psicoativas (álcool, maconha e outras drogas), a oferta de leitos praticamente não se alterou. Em sua dissertação de mestrado defendida no início deste mês, o médico Regis Eric Maia Barros constatou que entre 2003 e 2004 o número de internações dessa natureza aumentou 30% na cidade, indo de 1.613 para 2.101. Em 2007, o crescimento foi de 24% em relação a 2004 (2.621). Nesse período, a quantidade de leitos se manteve em 108.
A pesquisa concluiu que o aumento das internações era resultado da carência de atendimento ambulatorial eficaz, que controlasse os sintomas do paciente e evitasse a reinternação. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, em 2007 o índice de ex-pacientes do Santa Tereza que voltaram a ser internados foi de 61%.
"Quando a rede de serviços extra-hospitalares funciona de maneira eficiente, é possível evitar reagudizações e, portanto, novas internações", afirmou a professora Cristina Marta Del-Ben, coordenadora do Setor de Psiquiatria da Unidade de Emergência e da Enfermaria de Internação Breve do HC. Segundo ela, a internação psiquiátrica é indicada quando há situação de risco.
Apesar de reconhecer que as cinco unidades ambulatoriais ainda não atendem a demanda, o médico Alexandre Cruz afirma que há déficit de 20 leitos psiquiátricos. "Os pacientes não têm vagas, mesmo que precisem de internação."
Já o Hospital Santa Tereza nega falta de leitos. "A questão não é essa. Se ampliar, haverá mais reinternação, o que não resolve", afirmou a assistente Terezinha Fiorini Pícolo.