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Sindipar alerta para “travamento” do crescimento operacional dos hospitais privados no Paraná

Os hospitais privados do Paraná vivem um cenário de forte pressão financeira, apesar da recuperação econômica registrada pelas operadoras de planos de saúde desde 2024. O alerta é do Sindicato dos Hospitais e Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Paraná, que aponta um “travamento” no crescimento operacional dos hospitais provocado, entre outros fatores, pelo aumento das glosas — quando operadoras de saúde recusam total ou parcialmente o pagamento de procedimentos, exames ou internações realizados pelos hospitais — e pela demora no pagamento dos serviços prestados.

Dados da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) mostram que, enquanto as operadoras registraram resultados financeiros recordes em 2024 (R$ 11,1 bilhões de lucro líquido, aumento de 275% em relação ao ano anterior), os hospitais seguem convivendo com queda nas margens operacionais, aumento das despesas e dificuldades de caixa.

A Anahp mostra que 62,64% dos seus hospitais associados projetavam 2025 como mais desafiador que 2024. A margem EBITDA dos hospitais caiu 40% em 2025 e até 41% dos estabelecimentos reduziu investimentos em 2024 por causa do estrangulamento de caixa. No Paraná, cerca de 150 instituições hospitalares fecharam na última década, a maioria de pequeno e médio porte no interior, pela falta de equipes jurídicas e médicas especializadas para contestar as glosas.

Segundo o presidente do Sindipar, Álvaro Quintas, a situação preocupa porque as glosas comprometem diretamente a sustentabilidade da rede hospitalar privada. “O hospital atende o paciente imediatamente. Ele não pode esperar. Precisa manter equipe médica, enfermagem, medicamentos, tecnologia e estrutura funcionando 24 horas por dia. Mas os pagamentos seguem represados por discussões administrativas e comerciais que se arrastam por meses”, afirma.

Glosas

As glosas atingiram níveis históricos em 2025. Dados da Anahp mostram que a glosa inicial chegou perto de 18% em alguns períodos do ano, enquanto o prazo médio de recebimento dos hospitais ultrapassou 78 dias.

As operadoras de planos de saúde reteram R$ 5,8 bilhões em serviços prestados via glosas em 2024. Isso representou 15,89% do faturamento total dos hospitais. Mas o que impressiona é que apenas 1,96% das glosas eram justificáveis. As outras 98% não tinham caráter questionável. E o pior: as operadoras passaram a reter a totalidade da fatura, e não apenas a parte glosada, o que asfixia o fluxo de caixa dos hospitais.

Na prática, segundo o Sindipar, isso significa que os hospitais realizam os atendimentos, assumem todos os custos da operação e ficam meses aguardando recursos que deveriam retornar rapidamente ao caixa das instituições.

O presidente do Sindipar reforça que, no planejamento estratégico, a entidade estará ampliando a sua incidência Política para alertar os poderes executivo, legislativo e judiciário sobre a situação de limite que encontram-se os hospitais privados no Paraná.

Prejuízos além das glosas

A verticaliação das operadoras (descredenciamento de rede conveniada e construção / criação de hospitais próprios) também não ajuda. 

Em Curitiba e região, a segunda maior operadora de saúde privada, com 120 mil beneficiários, descredenciou quatro dos maiores hospitais da região, sem qualquer compensação financeira. 

Devido a medidas como estas,  um hospital psiquiátrico, também descredenciado pela operadora, não suportou os custos e fechou as portas em 2019. No Brasil, mais de 2 mil hospitais privados fecharam na última década, com o Paraná entre os estados mais afetados.

“O que vemos hoje é um sistema em que os hospitais suportam o atendimento e financiam parte da cadeia da saúde suplementar. Enquanto os pagamentos ficam represados, as operadoras trabalham financeiramente com esses recursos. Isso cria um desequilíbrio muito grande dentro do setor”, diz Álvaro Quintas.

O presidente do Sindipar ainda ressalta mais dados que demosntram a dificuldade: A ANS autorizou reajuste máximo de 6,06% para planos individuais. A inflação médica, no entanto, ficou em torno de 13 a 15% e foi totalmente absorvida pelos hospitais privados. Os planos coletivos (os empresariais, para funcionários CLT, maioria do mercado) não têm teto de reajuste regulado, mas as operadoras impõem reajustes dos repasses aos prestadores muito abaixo da inflação setorial. A Selic a 15% elevou o custo da dívida dos hospitais que precisaram de capital de giro.

Os hospitais brasileiros bateram recordes de pedidos de recuperação judicial em 2025 (5.600 pedidos), com o Paraná entre os 5 estados líderes no ranking.

Outros fatores que pressionam a carga dos hospitais privados são o piso da enfermagem e a carga tributária. A maioria dos hospitais não suportarou o valor definido pela lei nacional do piso da enfermagem (que causou impacto de R$ 500 milhões no Paraná) e precisou demitir. Além disso, hospitais privados pagam impostos que não são cobrados dos hospitais filantrópicos. Sem contar a concentração de mercado em grandes grupos de saúde, que pressiona hospitais e clínicas menores.

Melhora nos índices hospitalares

O sindicato destaca que, mesmo diante desse cenário, os hospitais privados brasileiros conseguiram avançar em eficiência operacional e qualidade assistencial. Indicadores da Anahp apontam redução no tempo médio de internação, queda nas taxas de mortalidade operatória e melhora nos protocolos clínicos e índices de infecção hospitalar.

A média de permanência hospitalar caiu para 3,66 dias em 2025, enquanto a taxa de ocupação hospitalar atingiu quase 80%, uma das maiores da série histórica.

“Os hospitais estão fazendo a lição de casa. Investiram em gestão, tecnologia, segurança do paciente e eficiência. Mesmo assim, continuam enfrentando enorme dificuldade financeira por causa da retenção de pagamentos e do excesso de glosas”, afirma o presidente do Sindipar.

O sindicato alerta que a situação já impacta o dia a dia das instituições de saúde. Hospitais relatam dificuldades para equilibrar fluxo de caixa, ampliar investimentos, renovar estruturas, contratar profissionais e expandir serviços.

Debates estratégicos sobre o futuro da saúde

Segundo Álvaro Quintas, o excesso de disputas comerciais também impede discussões mais estratégicas para o futuro da saúde suplementar.

“Hoje, hospitais e operadoras acabam presos em intermináveis negociações de glosas e faturamentos. Isso trava debates importantes sobre inovação, novos modelos assistenciais, ampliação de acesso e sustentabilidade do sistema de saúde”, afirma.

Diante do cenário, o Sindipar pretende ampliar o debate institucional sobre o tema e buscar diálogo com representantes dos três poderes, além de órgãos reguladores e lideranças do setor. A proposta, segundo o sindicato, é construir mecanismos que garantam maior previsibilidade financeira, mais equilíbrio na relação entre operadoras e prestadores e maior fluidez nos pagamentos hospitalares.

“Quando o hospital perde capacidade financeira, toda a cadeia da saúde sofre. O impacto chega ao atendimento, aos profissionais e, principalmente, ao paciente. O sistema precisa voltar a funcionar de forma equilibrada e sustentável para todos”, conclui Álvaro Quintas.

O Sindipar está em 70 municípios paranaenses e representa cerca de 5 mil serviços de saúde no estado.